Blogue de gente de verbo fácil e língua afiada como uma espada de hara-kiri. Alimentado por: Conde, DeNunes, Dulcineia, Edgarganta, Gaja do Teatro, Goretti, Grace Kelly, Jaimemorto, Mousezinger, Romero, Stôra e Toni Ciganita

terça-feira, junho 14, 2005

ninguém lava o telhado com um fervedor!

deitado na cama, com o umbigo virado para baixo e o rosto a ir ao encontro, da luz incadescente que entra dentro do quarto, ouço outra vez aquele barulho. novamente aquele barulho. um daqueles barulhos a que nos habituámos a viver com. água. água que cai em cima de um telhado.
a primeira vez que o ouvi pensei... não. não é possível. o saneamento básico ainda não chegou às traseiras da minha casa. queres ver que as frágeis latrinas que se penduram nos alçados tardoz dos prédios mais antigos de lisboa, ainda não foram desactivadas aqui. queres ver que os meus vizinhos ainda têm de se deslocar até à varanda para fazer as suas necessidades. e será que este barulho é o do balde da água, a ser jorrado janela fora sem qualquer aviso prévio?! cautelosamente, dirigi-me até à marquise para confirmar. entreabri a janela, escondendo-me por detrás das persianas, tentando evitar ao máximo ser notado. ah! novamente aquele barulho. inclinei a cabeça na direcção da fresta de luz, até que esta se alinhasse com os meus olhos. percorro, de baixo para cima, o prédio degradado encavalitado a não mais de 10m de distância do meu. um homem, vestido numa camisa de alças branca suja, enquadrado por uma escultura de restos de materiais apostos entre si, despejava, com um púcaro na mão, água sobre a latada do rés-do-chão.

todos os dias ouço o mesmo barulho. à noite. de dia. descobri, entretanto, que a insólita tarefa é desempenhada também, pelo vizinho mais a baixo. que diabo?! o que levará esta gente a fazer tal coisa? lavar o telhado do vizinho. certo! atitude nobre e demonstrativa de solidariedade. mas caramba! todos os dias!? várias vezes!? penso que também pode ser para arrefecer o telhado do vizinho, para que este não tenha tanto calor, coitado, quando a latada que tem por cima da cabeça, começa a derreter sob o sol quente. não. não me parece. tamanha generosidade já não existe nos dias de hoje. a não ser a troco de algo. também já pensei, que afinal a água pode não ser água. pode efectivamente ser dejectos líquidos, de variada espécie. quem sabe? a esta distância, é difícil descortinar. a teoria da lavagem também cai por terra, pois ninguém lava um telhado com um fervedor!

não sei. juro que não sei. não consigo compreender. talvez um dia, me dê ao trabalho de lhes perguntar. afinal, em tempo de seca, devem ser litros e litros de água a serem deitados pelo telhado abaixo.

1 Comments:

Blogger Unknown said...

Esse episódio é nitidamente uma manifestação artística. Está visto que os teus vizinhos são homens de grande sensibilidade. Deixa-os criar. Deixa-os.

11:01 da manhã

 

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